Versos íntimos
Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!
Pois é... De acordo com o belíssimo poema de Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos, a cruel ingratidão do homem é quem irá lhe acompanhar nos momentos mais difíceis da vida. Na primeira estrofe, é possível observar isso, já que o eu lírico está enterrando sua ilusão, solitário, sem ninguém para o ajudá-lo, apenas a ingratidão, que segundo o autor seria sua fiel companheira. Já na segunda estrofe, ele inicia deixando um conselho, dizendo para se acostumar a viver na miséria. Traz também, a necessidade que o homem tem em ser cruel e severo, já que vive entre homens com a mesma necessidade. Na terceira estrofe, inicia com uma ironia, e logo em seguida, anuncia que o afeto antecede o desprezo. E que a mão que acaricia é a mesma que irá te apunhalar. Na quarta e última estrofe, o autor volta a aconselhar, se alguém sente compaixão de suas mágoas, você deve desprezá-lo, já que essa comiseração não passa de falsidade, e logo pode se tornar ingratidão, o conselho deixado é para que se desconsidere, antes que lhe desprezem. O poema é um soneto clássico, composto por rimas interpolares, na sequência ABBA, BAAB, CCD EED. Todos os versos são decassílabos.
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